A questão para o artigo de hoje é muito pertinente e a sua importância é muito elevada. Por essa razão, este artigo é de nível avançado. Confira.
Como foi visto nos trabalhos anteriores pretendo seguir a mesma linha de pensamento e ensinar porque razão os melhores treinadores também falham, as melhores equipes também falham e os melhores jogadores também falham. Neste artigo, vou enumerar algumas razões para que isso se suceda desse jeito porque, supostamente, o melhor modelo de jogo devia vencer todos os outros modelos de jogo.
Razão n.º 1
Não existem jogadores melhores nem piores. Existem jogadores mais ou menos evoluídos e mais ou menos adaptados.
Uma vez, conheci um colega de trabalho. Nunca o tinha visto, mas já tinha ouvido falar dele, e após trabalhar ele alguns meses, ele revelou-se um dos melhores mestre que eu tive até hoje. Não vou contar toda a história e revelar tudo o que aprendi, pois nem tudo o que ele me ensinou é adaptado ao futebol, mas deixou-me uma lição importante. Não foi um pai, nem foi um professor, foi um amigo, que se dedicou a ensinar-me. E a lição que me ensinou foi: cada um tem as suas responsabilidades.
No futebol, seja na administração ou no campo, passa-se exatamente o mesmo. Cada indivíduo pertencente ao clube tem as suas responsabilidades, e muitas vezes, a quebra de rendimento de um indivíduo quebra o rendimento do clube. Dentro do campo, a queda do rendimento de um jogador pode ser disfarçada pelo companheiro da equipe, mas o jogador está em mau rendimento, em um único erro pode colocar em prejuízo o trabalho de equipe. Um passe mau dado, um drible em vez de um passe, uma finalização em vez de segurar a bola, são situações onde a bola é entregue ao adversário. Não saber esperar pela ocasião certa para chutar, ou esperar demasiado tempo até que não haja outra hipótese alguma para finalizar em condições também é um erro que, além de impedir o gol para sua equipe, e entrega a bola ao adversário. E entregar a bola ao adversário, é como abrir a nossa casa aos ladrões, pois estamos oferecendo a oportunidade ao nosso oponente para vencer a partida.
Treinadores inteligentes compreendem que cada jogador tem uma função para cumprir em campo. Uns atacam, outros defendem, embora uns ataquem quando a equipe está defendendo e outros defendem quando a equipe está a atacando. Esta relação entre atacar e defender é um grande passo para formar um bom modelo de jogo, onde muitos treinadores invariavelmente falham. Porque isso acontece? A falta de responsabilidade do treinador em escolher um modelo de jogo que potencie os atacantes quando a equipe defende e potencie os defensores enquanto a equipe ataca leva muitos jogadores a jogarem mal adaptados e mal instruídos naquilo que realmente são capazes de fazer. Para muitos treinadores, a partir do momento que aprendem o que são momentos de jogo, julgam que o momento ofensivo é para atacar e o momento defensivo é para defender. Então, atacam com todos ou defendem com todos, acabando por entregar o controle do jogo ao adversário. Está totalmente errado. Momentos defensivos servem para preparar a transição ofensiva além de defender e momentos ofensivos servem para preparar a transição defensiva além de atacar. Esta falha de responsabilidade dos treinadores leva os jogadores a falharem nas suas responsabilidades no campo. E o treinador grita, pede esforço aos jogadores, manda-os fazer coisas que não preparou e quando chega à palestra culpa os jogadores por algo que não os ensinou a fazer, culpa os jogadores por falha própria. Muitos jogadores questionam o trabalho do treinador, quando nem se lembram que responsabilidades de treinadores e jogadores são totalmente diferentes. A responsabilidade do treinador é organizar uma equipe, seguindo princípios, escolhendo estratégias, analisando resultados e tomando decisões, ensinar e treinar tudo aquilo que decidiu aos jogadores. A responsabilidade dos jogadores é procurar compreender o que pede o treinador, treinar com eficiência, entrar em campo com pensamento vencedor, e mesmo que essa não seja a sua vontade, cumprir a função que o treinador pede. O treinador não é mais importante que os jogadores e os jogadores não são mais importantes que o treinador. Todos formam uma equipe, não de onze jogadores, mas de doze membros. Sempre que vejo um treinador aos gritos pedindo coisas que os jogadores não fazem, sabemos que existe um défice de comunicação entre treinador e jogadores e sabemos que nem o treinador transmite aquilo que realmente sabe nem os jogadores são evoluídos conforme o que o seu potencial permite.
Razão n.º 2
O segredo não está no meio-campo, nem defender bem, nem atacar melhor, nem na técnica, nem no porte físico. O segredo está em controlar o momento ofensivo e o momento defensivo e saber trabalhar entre estes dois momentos.
Existem quatro momentos no jogo: momento ofensivo, momento defensivo, transição ofensiva e transição defensiva, e como é sabido, a ordem destes momentos é imprevisível durante uma partida de futebol. A pior coisa que qualquer equipe pode fazer é entregar o controle do jogo ao adversário, isto é, defender com todos os jogadores sem nem sequer buscar o contra-ataque, ou atacar com muitos jogadores porque a equipe está perdendo. Na maior parte dos jogos, as equipes que estão controlando o jogo vencem a partida, pois assumem a responsabilidade de decidir o resultado e obrigam o adversário a tomar decisões sem espaço de tempo para pensar. Muitas vezes, ouvimos fãs do futebol explicar que o segredo de uma equipa é o meio-campo. Vejamos, o esquema tático com mais meio campistas atualmente é o 3-6-1. Com seis jogadores fazendo parte do segredo para vencer, os outros cinco jogadores servem para quê? É um absurdo pensar desta forma, pois todos os jogadores participam nos quatro momentos de jogo Não importa se a equipe está defendendo ou atacando, importa é que a equipe defenda como quer defender e ataque como quer atacar, o que nós chamamos de dominar o jogo.
Quando a equipe adota uma postura defensiva, deve escolher um método ofensivo que seja eficaz com essa postura defensiva. Defender concentrado, com as linhas baixas, é uma excelente opção para escolher o contra-ataque como método ofensivo e determinar como vai defender para contra-atacar. Posicionar duas linhas de jogadores responsáveis por recuperar a posse de bola em determinada zona do campo, e deixar três jogadores livres e prontos para levar a bola até o gol adversário é uma excelente combinação posicional entre o momento defensivo e a transição ofensiva. Quando recuperar a posse de bola, a equipe está mais que preparada para contra-atacar sem perder tempo. E porque os jogadores não perdendo tempo para decidir o que fazer com a bola, a eficácia do contra-ataque será maior.
Aprofundando, existe uma relação de causa/efeito entre os vários momentos de jogo. O momento defensivo e o momento ofensivo dependem das transições, e as transições dependem dos momentos ofensivo e defensivo. Quando uma equipe consegue ligar os vários momentos de jogo, diminui o tempo que demora para passar de um momento para o outro, assim como melhora a eficácia dessa mudança de postura. Equipes sem estas capacidades que defrontam outras equipes com esta capacidade em mudar entre os momentos de jogo, geralmente sentem imensas dificuldades, pois estão competindo contra equipes que controlam a partida. Por sua vez, uma equipe que controla a partida, isto é, defende e ataca como quer e pretende, assume maiores possibilidades de vencer a partida. A questão não se foca apenas em atacar pontos fracos do adversário e defender os pontos fracos da própria equipe, mas em controlar esses momentos a nível de decisão e estratégia, mesmo que isso signifique esperar para recuperar a posse de bola ou esperar para finalizar.
Razão n.º 3
Escolher uma estratégia de jogo significa escolher a probabilidade de obter um resultado. Mesmo que seja a melhor estratégia do mundo, também falha.
Atualmente, o leque de opções e estratégias disponíveis para as equipes é muito variado e dificilmente enfrentamos duas equipes com a mesma estratégia de jogo num período curto de tempo. Não me refiro a estratégia enquanto posição de ataque ou ataque rápido, nem a defesa por zona ou homem a homem. Refiro-me à forma de como a equipe age ou reage quando ataca ou defende. Diferentes planteis tem diferentes jogadores, logo tem também diferentes caraterísticas para jogar. Por esta razão, o mesmo modelo de jogo não serve para duas equipes diferentes, pois estas não tem as mesmas características.
Uma vez que o jogo é realizado em espaço amplo por cerca de vinte e dois jogadores, é praticamente impossível determinar o que vai acontecer durante a partida de futebol. Junte se a isto, ao escolher uma estratégia para um jogo, o treinador avalia os pontos fortes e fracos da própria equipe e do adversário. Este será o ponto de referência para escolher uma estratégia para o jogo, uma vez que o treinador procura usar os pontos fortes da própria equipe contra os pontos fracos do adversário, procurando aumentar as hipóteses de vencer a partida. Quanto mais forte for a equipe em determinada situação e mais fraco for o adversário nessa mesma situação, mais fácil será para a equipe ultrapassar o ponto fraco do adversário, logo, a probabilidade de ultrapassar esse ponto fraco é maior.
Esta lógica de pensamento levou vários treinadores a observar adversários e enviar observadores técnicos para analisar, procurando conhecer os pontos fracos deste e fazer coincidi-los com os pontos fortes da sua equipe. Muitos treinadores compreendem que podem tirar partido da observação dos adversários e entrar em campo com estratégias de maior probabilidade de obter sucesso. No entanto, muitos treinadores não dispõem deste recurso, o que dificulta o trabalho realizado. Observações de adversários pode ser uma excelente porta de entrada para treinadores novatos no futebol, uma vez que a capacidade de treinar é tão importante como a capacidade em observar o jogo. O treinador que observa bem o jogo sabe o que a equipe precisa e quais são as caraterísticas do adversário. O treinador que treina bem sabe como aplicar os processos como pretende. Observar um ponto fraco no adversário e treinar um ponto forte que coincide com esse ponto fraco significa obter clara vantagem no controle do jogo e na probabilidade de vencer a partida
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